sexta-feira, 6 de abril de 2012

CRÍTICA: Contágio (Contagion, 2011)

Trailer de Contágio

Um elenco de fazer inveja a qualquer cineasta, uma premissa interessante, um roteiro interpolado à la Crash (Crash – No Limite, 2004) e o respeitado diretor de Traffic (Traffic: Ninguém Sai Limpo, 2000), Steven Soderbergh. Contagion tinha tudo para se tornar um thriller perfeito, mas, infelizmente, Soderbergh se atrapalha, nos oferecendo um produto comercialmente duvidoso e artisticamente fraco.

Na trama, um vírus se espalha rapidamente pelo mundo. Acompanha-se o incidente através de várias personagens: vítimas, cientistas, agentes do governo e um jornalista. Com o mundo como palco, eles lutam pela sobrevivência e salvação, enquanto a sociedade como se conhece desmorona.

Fica difícil acompanhar o clima de urgência, que se tenta instaurar desde o início da película, com sub-tramas tão desinteressantes e sem relevância à trama principal (um grupo de cientistas e a busca pela cura). O roteiro peca em desperdiçar atores e atrizes de peso, sem desenvolver suas personagens. Aliás, todas as personagens são extremamente rasas, o que torna ainda mais complicado para o telespectador se importar com alguma coisa que se está sendo mostrado na tela. A impressão que fica é que, todos morrendo ou não, tanto faz. C´est la vie...

Kate Winslet e Marion Cotillard estão bem, mesmo com personagens que nada adicionam à trama. Jennifer Ehle surpreende. Outros, como Matt Damon, Gwyneth Paltrow e Laurence Fishburne, fazem o “feijão com arroz”, atuando no automático. Porém, é Jude Law que se destaca negativamente, numa atuação tão forçada que torna a sua personagem (já desacreditada desde o início, seja na tela ou fora dela) um tanto caricata.

Tentando abordar vários pontos de vista (o individual e egoísta, o social e o político-econômico), Soderbergh tenta abraçar o mundo com as pernas e se perde. Não se aprofunda em nada, e ainda abandona algumas personagens secundárias ao léu. Na segunda metade do filme, apresenta-se uma série de cenas e situações clichês, presentes em variados filmes-catástrofes. Fica a impressão de que o diretor está tentando, de maneira forçada, uma fusão entre Outbreak (Epidemia, 1995) e Blindness (Ensaio Sobre A Cegueira, 2008), sem conseguir chegar perto de nenhum deles.

A trilha sonora é um demérito à parte. Parece tentar compensar o vazio, ao impor um ritmo mais alarmante à história. Não funciona. Entretanto, há de se louvar a narrativa, que segue coerente (apesar de alguns atropelos do roteiro) e mantém a sanidade em meio ao pânico que se instaura na tela. Os posicionamentos da câmera de Soderbergh também são interessantes para captar alguns (poucos) momentos de emoção, em contraste ao sentimentalismo barato, também presente no filme.

Enfim, com personagens ocas e trilha sonora equivocada, o diretor tenta salvar a película, porém sem muito esforço. Não é de todo um filme ruim, mas bem fraco pela promessa que os nomes talentosos conectados a ele oferecem. Desta vez, mesmo com valiosos recursos, Soderbergh falhou feio, com indiferença, e não parece nem de longe o cineasta que se consagrou com Traffic. Contagion não fede nem cheira; está fadado ao esquecimento minutos após o término da sessão. 

Daniel Lima

Nenhum comentário:

Postar um comentário