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sexta-feira, 27 de abril de 2012

[CRÍTICA] Os Vingadores - The Avengers (The Avengers, 2012)

Trailer de Os Vingadores - The Avengers

Instalado no meu cérebro por uma raça desconhecida de alienígenas, por duas vezes meu nerdômetro estourou no cinema. A primeira foi com The Lord Of The Rings: The Return Of The King (O Senhor Dos Anéis: O Retorno Do Rei, 2003), e a segunda, com The Dark Knight (Batman – O Cavaleiro Das Trevas, 2008). A Marvel, responsável por povoar a imaginação de crianças, jovens e nerds adultos (eu!) por mais de meio século, sempre foi uma das candidatas mais fortes a estourá-lo e eu esperava por isso ansiosamente, a cada lançamento de seus filmes. Entretanto, ao contrário do que acontecia em suas HQs, era decepção atrás de decepção. The Avengers prova que valeu a pena a espera.

A evolução da Casa Das Idéias no cinema é tortuosa e inconstante. A década de 80 (praticamente sua estréia na Sétima Arte) e início dos anos 90 foi um começo penoso e que resultou em filmes horríveis, como Howard The Duck (Howard – O Super-Herói, 1986) e Captain America (Capitão América, 1990). Isso sem mencionar a pérola que nunca foi lançada (vetada pela própria Marvel!): Fantastic Four (Quarteto Fantástico, 1994), dirigida por um dos mestres dos filmes B, Roger Corman. Por fim, a Marvel se acertou com Blade (Blade - O Caçador De Vampiros, 1998) e X-Men (X-Men: O Filme, 2000).

No geral, a antiga e criativa editora não possui um histórico cinematográfico digno de suas (MARVELous!) personagens. Com títulos como Daredevil (Demolidor - O Homem Sem Medo, 2003), Hulk (Hulk, 2003), Fantastic Four (Quarteto Fantástico, 2005), Ghost Rider (Motoqueiro Fantasma, 2007) - e aqui faço questão de não mencionar sua odiosa sequência -, X-Men Origins: Wolverine (X-Men Origens: Wolverine, 2009), Thor (Thor, 2011), entre outros, a Marvel possui uma carreira numerosa, porém de pouca qualidade cinematográfica. Não obstante, ela é responsável por algumas das grandes obras-primas baseadas em HQ, como Spider-Man (Homem-Aranha, 2002), Iron Man (Homem De Ferro, 2008) e X-Men: First Class (X-Men: Primeira Classe, 2011). Além disso, várias sequências funcionaram e são bons filmes. Porém, a editora merecia algo à sua altura e já estava mais que na hora da sua irmã dos cinemas lançar O FILME.

O FILME se chama The Avengers. Quando a Terra é ameaçada por um semi-deus de outro plano, Lóki (Tom Hiddleston), e um exército alienígena, a salvação pode ser Os Vingadores, equipe de super-seres reunida por Nicky Fury (Samuel L. Jackson), diretor da unidade especial S.H.I.E.L.D. (Strategic Hazard Intervention Espionage Logistics Directorate). Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Capitão América (Chris Evans), Thor (Chris Hemsworth), Hulk (Mark Ruffalo, como Bruce Banner), Gavião-Arqueiro (Jeremy Renner) e Viúva-Negra (Scarlett Johansson), porém, terão de enfrentar seus egos, antes de poderem se tornar a única esperança do planeta.

Para começar, é difícil, muito difícil, falar sobre o filme. Por quê? Bom, enquanto as meninas sonhavam com as princesas disneyanas, nós, os meninos, nos divertíamos com os heróis Marvel, seja através dos gibis, seja através dos cartoons. Mais que isso: nós nos espelhávamos neles. Apesar da DC Comics também ter sua parcela de influência (em grande parte devido somente ao Super Homem e ao Batman), era a Marvel que diversificava e atendia aos nossos corações individuais. A quantidade de personagens criadas pelo Zeus do panteão nérdico, Stan Lee, é imensa e há um herói para cada um, para cada tipo de gosto. A propósito, como em todo filme de personagem criada por ele, há uma ponta sua (geralmente cômica), em homenagem a si mesmo. Homenagens estas mais que merecidas, pelo papel que teve como grande condutor dos sonhos infantis de cada nerd.

Devaneios à parte, vamos ao filme. Com pouca e irrelevante experiência no cinema, Joss Whedon, construiu sua carreira através de séries de TV, focadas em várias personagens. Em The Avengers, ele cria um espetáculo com sólida sincronia dos heróis. Retocando o roteiro aqui e ali, podemos ver o esmero com que ele nos apresenta cada protagonista. As atitudes e traços de personalidade estão fortes e transparentes em cada um, e todos têm o seu papel fundamental no grupo. Caso lesse o roteiro sem os respectivos nomes, um fã conseguiria descobrir o autor de cada frase ou que heróis estariam presentes em certo diálogo. Ouvi-los conversando ou discutindo entre si é música, um poema para os ouvidos de quem cresceu lendo suas histórias. A perfeita coesão e a fidelidade às HQs são os maiores méritos de Whedon aqui.

É acertada a idéia de ir contra a tendência de noirizar as películas baseadas em super-heróis, que toma conta de Hollywood ultimamente. Hulk está lá, verde; o Homem de Ferro, vermelho e amarelo; Capitão América, azul, vermelho e branco; e Lóki, verde e amarelo (não, ele não é brasileiro; é asgardiano!). Um turbilhão de cores. A Marvel é colorida e espalhafatosa, destruindo porta-aviões, prédios, cidades inteiras. A Marvel é marvelous e os Vingadores devem ser e são retratados assim.

O início é um pouco lento, ambientando o telespectador mais leigo. Isso não significa que os fãs são esquecidos; ao contrário, os alívios cômicos desta primeira parte (presentes em grande número em toda a película e sempre bem colocados), principalmente os de Stark, são para todos, mas essencialmente para nós, os fãs mais ferrenhos. Após as introduções, porém, o ritmo do filme é intenso. Ação quase ininterrupta, com trama lógica e inteligente, porém sem muitas surpresas e com bom humor sempre.

É interessante a presença do Agente Coulson (Clark Gregg), personagem criada apenas para o filme, como um link entre os heróis e nós, meros mortais. Qual de nós não gostaria de ter nossos gibis (ou até mesmo a coleção inteira!) autografados pelo verdadeiro (e real!) Capitão América? Downey Jr. está ótimo como sempre, mas creio que já estamos acostumados com seu talento. Portanto, Ruffalo aqui se destaca; está sempre estampado no seu rosto o tormento que é a convivência com sua contra-parte. Quando ele finalmente revela o segredo de como controla o Hulk é que entendemos isso. Mas quem, de fato, rouba todas as cenas é Hiddleston. Apesar de não ter gostado de Thor (Thor, 2011), ele é um dos pontos fortes do filme do deus do trovão e aqui ele atinge seu auge: frio, esperto, obcecado, egocêntrico e irônico. Hiddleston atira insanidade com apenas um olhar.

A trilha sonora é imersiva e a fotografia é impressionante. Tudo é belíssimo, sem aquela confusão e tremidas de câmera, características de filmes-pipoca apelativos. Os ângulos dinâmicos e os planos-sequência criativos levarão muitos nerds ao orgasmo. Orgasmos múltiplos, por sinal. Eu, pessoalmente, odeio o trabalho Michael Bay, mas fica praticamente impossível não comparar The Avengers com uma de suas obras (especialmente se for um dos seus Transformers). Para aqueles que defendem seu cinema canastrão de destruição e efeitos, desafio-os a assistir The Avengers. Quero ver se alguém tem coragem de dizer que ele sabe filmar ação, depois das tomadas em que todos os Vingadores são, em sequência, captados em movimentos enérgicos. Ah, Bay, volta pra escola!

Entretanto, o grande mérito do filme é o respeito. The Avengers respeita não apenas cada franquia já  estabelecida no cinema da Marvel, mas, principalmente, os fãs. É como se tivessem feito cada um dos heróis caracterizados nos reverenciar. Sentimos que a Casa das Idéias não queria um filme em que suas maiores criações simplesmente lutassem para salvar o planeta. Ela não queria que eles lutassem POR nós. Queria que eles lutassem PARA nós. Nisso, eles obteram o maior êxito de sua história.

The Avengers é a maior obra-prima da Marvel. Meu nerdômetro não resistiu e estourou pela terceira, quarta, quinta, sexta... (!) vez, ao som de cada energy-blast do Homem de Ferro, cada flechada do Gavião-Arqueiro, cada martelada de Thor, cada punch do Hulk, cada pontapé da Viúva-Negra, e cada shield-tossing do Capitão América. The Avengers é uma ode à Marvel, aos fãs, aos seus heróis; enfim, é como o Hulk: The Avengers smash!

P.S.: ATENÇÃO!!! ESPEREM PELA CENA PÓS-CRÉDITOS!!! 

Daniel Lima

Curso Prático de Cinema Digital na Cinemateca

Aqueles que gostam da Sétima Arte terão uma oportunidade para fazer Cinema. A Cinemateca de Curitiba vai abrir inscrições para o Curso Prático de Cinema Digital para Iniciantes. Com vagas limitadas e aulas nos finais de semana (das 9h às 12h e das 14h às 18h), o curso terá carga horária de 194 horas. As aulas serão realizadas de 16 de junho a 26 de agosto.
Os tópicos abordados serão:
  • História e Teoria do Cinema
  • Roteiro
  • Desenvolvimento de roteiro
  • Direção de ficção
  • Direção de documentário
  • Fotografia
  • Som
  • Desenvolvimento de roteiro (final)
  • Produção
  • Edição
Sendo que no final do curso será realizado um filme de curta-metragem.

O curso é gratuito e apenas para maiores de 18 anos.
Inscrições a partir de 1º a 30 de maio através do e-mail cursoscinefmc@gmail.com. Mais informações no site www.fundacaoculturaldecuritiba.com.br. O resultado estará disponível no site da FCC a partir do dia 4 de junho.

Cinemateca de Curitiba
Rua Carlos Cavalcanti, 1.174, São Francisco, Centro

quinta-feira, 26 de abril de 2012

[CRÍTICA] A Tentação (The Ledge, 2011)

Trailer de A Tentação

Um homem sobe ao topo de um prédio e ameaça se jogar. Um policial, que acaba de descobrir a traição da esposa, é designado para evitar a tentativa de suicídio. Esta é a premissa de The Ledge, filme escrito e dirigido por Matthew Chapman, diretor de poucos e inexpressivos longas. Até agora.

Já de início, Chapman deixa claro que há algo errado. Há algo a ser contado, além das misérias e infortúnios comuns que assolam a maioria dos potenciais suicidas. A história é bem desenvolvida e a narrativa intercalada entre o dilema de Gavis (Charlie Hunnam), o homem atormentado, e os problemas pessoais de Hollis (Terrence Howard), o detetive, consegue prender a atenção do telespectador até o final.

Há boas sacadas no filme, como a “receita” descoberta por Gavis para conquistar uma mulher compromissada. O primeiro contato de Gavis e seu room-partner com o casal Harris, Joe (Patrick Wilson) e Shana (Liv Tyler), é genial. A trama é amarrada com detalhes e permeada com diálogos e debates contundentes e inteligentes, seja entre Joe e Gavis, Gavis e Shana, ou mesmo entre Hollis e Gavis. A trilha sonora transforma o clima dramático em um thriller cujo desenrolar acompanhamos envoltos.

O destaque da película é a abordagem entre os dois extremos de uma escala: o ateísmo e o fundamentalismo cristão. Entretanto, não justifica tantas polêmicas (especialmente com a imprensa e algumas igrejas) ao seu redor. É o ponto de vista expresso do autor e defensor da filosofia ateísta de seu real tataravô, Charles Darwin (curiosa coincidência). Chapman é claro e objetivo: há um herói ateu e um vilão cristão. Talvez esta seja a grande polêmica: o simples fato de "defender" o ateísmo e discutir a fé. Como ateu convicto, não entendo o porquê de tantos “não-me-toques” que a religião invoca, sendo um reles tema propício ao debate como outro qualquer. Mas talvez o próprio Gavis tenha explicado bem no filme: “Why, after thousands of years of bloodshed, didn´t we at least try to do away with this insane concept of faith before it fucking kill us?”. Se um simples filme como este já polemiza, temo que o protagonista esteja absorto em razão.

Hunnman é a surpresa da película, conduzindo com carisma uma personagem normalmente “crucificada” pela maioria dos religiosos: o ateu. Wilson, como o fanático religioso Joe, e Tyler, como a recatada e submissa esposa Shana, estão igualmente ótimos. Howard, completando o quarteto principal e mesmo sem muito espaço, transparece bem os tormentos que está vivenciando. As personagens são desenvolvidas e sólidas, mesmo sendo estereotipadas.

De fato, The Ledge pode marcar uma enorme revira-volta na carreira de Chapman. Apesar de ter sido abalroado nas críticas especializadas, ele produz um thriller eficiente, com questões profundas e incisivas sobre nossas crenças, sejam religiosas, conjugais ou sociais. É um filme indispensável para aqueles que sabem lidar e aceitar as diferenças do outro e gostam de refletir sobre a vida e suas escolhas. Enfim, The Ledge proporciona diversão de várias maneiras, sejam descompromissadas, sejam filosóficas. Graças a Deus. Ou não.

Daniel Lima

quarta-feira, 25 de abril de 2012

[CRÍTICA] O Príncipe Do Deserto (Black Gold, 2011)

Trailer de O Príncipe Do Deserto

Um dos maiores problemas de Hollywood nos últimos anos é o de tentar emplacar um épico como grande sucesso de crítica e bilheteria. Troy (Tróia, 2004) Alexander (Alexandre, 2004), Kingdom Of Heaven (Cruzada, 2005), Immortals (Imortais, 2011), etc., são exemplos de alguns dos últimos fracassos do gênero. Dessa vez, portanto, a culpa não é de Hollywood. Black Gold é uma produção de França, Itália, Tunísia e Catar, baseado no livro do suíço Hans Reusch, South Of The Heart, de 1957. Porém, como seus colegas ianques, Jean-Jacques Annaud peca ao tentar fazer um épico com cara de blockbuster.

A película conta a história de dois líderes que travam uma trégua, após uma guerra pela faixa de terra desértica conhecida como Cinturão Amarelo. Pela trégua, Ammar (Mark Strong), sultão do lado perdedor, é obrigado a entregar seus dois filhos para Nesib (Antonio Banderas), sultão vencedor, como garantia de manutenção da paz. Quando estrangeiros descobrem petróleo no terreno neutro, um novo embate entre Nesib e Amar se faz iminente. Caberá então a Auda (Tahar Rahim), o filho caçula de Ammar, a escolha entre o coração da sua amada e filha de Nesib, Leyla (Freida Pinto), e liderar seu povo, ao lado de seu pai.

A história é fictícia: nem os povos, nem a região, nem as personagens de fato existiram. Entretanto, Annaud tenta trazer realidade ao público. Mas falha muito feio. Falha porque fica realmente difícil acreditar na abordagem simplória ao redor de tema tão complexo e estratégico, como o petróleo. E falha de novo ao abordar a política teocrática de um estado conservador. Por exemplo, quando Auda chega ao seu lar, encontra Amar, seu pai, cercado por conselheiros religiosos e fanáticos. De uma hora para outra, Amar começa a tomar as decisões sozinho, e o filme ignora completamente os aparentemente poderosos e influentes conselheiros pré-apresentados. Fica uma sensação de que Annaud não sabia lidar com o tema e decidiu abandoná-lo ao longo do filme. Outra coisa que me incomodou bastante foi o clima politicamente correto, forçado e excessivo.

Mas Black Gold tem seus méritos. Annaud deixa precisamente claro o embate entre o liberalismo e o conservadorismo. De um lado, Nehib, um ditador progressista (como se pode ver pela sua declaração: “Idiot! I decide who is an infidel!” e pelo uso que faz do dinheiro derivado da extração do ouro negro), e, do outro, Ammar, um líder teocrata e conservador. A produção tenta tapar a superficialidade da história com uma bela fotografia e produção suntuosa. Faz isso com muito êxito; após alguns tropeços iniciais, o filme consegue captar o telespectador e finalmente trazê-lo para o meio do deserto. O pouco uso de CGI é uma façanha nos dias de hoje e escolha mais que acertada. As cenas de batalha são bem feitas, intensas e emocionantes. Aplausos para o foco estratégico que permeia toda a guerra.

Além disso, Annaud conduz bem o dilema interno de Auda, entre sua amada e sua família. O desenvolvimento da personagem principal  é um dos destaques, com Rahim interpretando um tímido e inapto jovem que amadurece e por fim se torna um líder respeitado. Strong, apesar de parecer meio engessado, cumpre bem seu papel. Pinto, porém, encontra-se dramática demais. Mas o destaque negativo é (por incrível que pareça) Banderas, numa atuação caricata e que não faz jus à sua carreira. Com um ar excessivamente canastrão, mais parece um cafetão que o líder político e sensato de um povo.

A trilha sonora possui seus altos e baixos. De início, é arrastada e melodramática demais, especialmente nas cenas entre Auda e Leyla. No entanto, engrena ao longo do filme, acompanhando bem as batalhas e por vezes tecendo comparações à Lawrence Of Arabia (Lawrence Da Arábia, 1962).

No geral, Black Gold é uma película que vale a sessão, graças ao esmero de Annaud e de sua produção. Apesar dos seus defeitos, diverte e causa impacto. Não é um épico inesquecível, porém, em comparação aos outros exemplos recentes e citados anteriormente, pode-se dizer que ainda há uma chama de esperança para o gênero. Só espero que haja mais combustível além deste ouro negro para mantê-la acesa.

Daniel Lima

domingo, 22 de abril de 2012

[CRÍTICA] Carnage (Carnage, 2011)

Trailer de Carnage

Roman Polanski é um dos melhores diretores da atualidade. A maioria de seus filmes, fortes e por muitas vezes polêmicos, baseiam-se na expressão da verdadeira natureza humana. Polêmicos não por serem viscerais ou chocantes, mas por tratarem de temas não muito convencionais, como sexualidade e perversões, em Bitter Moon (Lua De Fel, 1992), ditadura e vingança, em Death And The Maiden (A Morte E A Donzela, 1994), etc. Carnage, sua mais nova obra, não é diferente.

A película conta a história de dois casais, que se encontram para resolver pacificamente uma agressão que ocorreu entre seus filhos, consequência de bullying. A discussão, porém, foge do controle, revelando as verdadeiras faces dos casais Cowman, Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz), e Longstreet, Penelope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly).

Um tema simples e monótono. Diria até chato. Mas, calma, é um filme de Polanski. Carnage, como qualquer de seus outros filmes, é genial. Praticamente toda a película se passa em apenas um ambiente: o apartamento do casal Longstreet, pais do menino-vítima da agressão (e cometedor do bullying). Em um dos primeiros desacordos entre os casais (“armed with” a stick ou “carrying” a stick?), já percebe-se que a conversa não irá acabar nada bem. O curioso é que Polanski tenta ludibriar o telespectador a cada momento, sugerindo um final para a discussão sem maiores consequências. Porém, a cada palavra, a cada frase, cada personagem vai se despindo dos valores politicamente corretos que somos obrigados a aceitar para viver em sociedade.

É isso que Carnage é: uma sátira à sociedade norte-americana e seu estilo de vida. E isto também serve para todos os povos americanizados, inclusive o brasileiro. Polanski nos prova que basta pisar em nosso calo para nos rendermos à natureza mais primitiva e animalesca. Toda a “civilidade” da qual os ocidentais se gabam vai por água abaixo. A postura defensiva de cada personagem mostra que, como o próprio Alan (na minha opinião o mais sensato e menos hipócrita dos quatro) deixa claro, ninguém ali está preocupado com o que realmente aconteceu (chega-se ao ponto de discutir até o abandono de um hamster!). Esquece-se como tudo começou; agora, trata-se de uma questão de honra, de orgulho, de se defender dos ataques disparados contra seus valores (hipócritas ou não). É curioso (e ao mesmo tempo assustador!) descobrir como somos racionais e simultaneamente tão fúteis e mesquinhos.

O quarteto protagonista está perfeito e envolvente: dramático e hilário ao mesmo tempo. God Of Carnage, peça teatral de sucesso de Yasmina Reza (que também escreveu o filme), baseia-se nas quatro personagens principais. No filme, eles também são o pilar (sim, os quatro estão tão bem entrosados que conseguem formar um único pilar!) e não apenas a sustentam, como elevam o telespectador a aplaudir no término da sessão, tal qual um ato cênico.

O modo de iniciar e terminar a película é sensacional. As cenas, sem sequer uma fala e durante os créditos iniciais e finais, explicam por si só o estopim e o fim do evento causal. Isso é Sétima Arte! Mais uma vez, ponto para Polanski! Entretanto, há um grande defeito no filme: a curtíssima duração. Quando estamos plenamente envolvidos, o fim nos pega de surpresa. Uma supresa não muito boa, já que nos divertíamos tanto com os diálogos vorazes, o humor negro e o sarcasmo do quarteto.

Assim, Carnage é verborragia inteligente e soberba sobre os valores arraigados nos imos do nosso ser. Se alguém  subitamente nos chamasse de hipócritas, provavelmente reagiríamos violentamente, oral ou fisicamente, tal qual uma das personagens do filme. A genialidade de Polanski é tamanha que ele faz exatamente isso com o telespectador, porém de maneira sutil e bem-humorada. E ainda sai aplaudido e reverenciado. Enfim, em Carnage, Polanski realiza uma ode à hipocrisia e nos prova o quão infantis (no sentido perverso da palavra) somos.

Daniel Lima

sábado, 21 de abril de 2012

CRÍTICA: A Perseguição (The Grey, 2011)

Trailer de A Perseguição

The Grey narra a história de sete sobreviventes de um acidente aéreo no Alasca, enquanto enfrentam uma nova ameaça: uma alcatéia faminta. Uma premissa interessante, especialmente para um suspense, coisa que Joe Carnahan, cineasta inexpressivo, não soube explorar bem, confuso entre o suspense e o drama.

Na primeira metade do filme, o ritmo flui bem, com uma atmosfera lupina ameaçadora, apesar das inserções desnecessárias de flashbacks mela-cuecas e repetitivos para tentar montar um background. Já na segunda metade, tudo piora: o melodrama e a interação entre o grupo de sobreviventes descamba para discussões fúteis sobre seus passados, religião, crises existencialistas... Os lobos parecem esquecidos e a ambientação inóspita se torna a principal ameaça. Bah, cadê o filme que comecei a assistir? Pra quê isso, e não apenas se limitar a construir um filme de suspense mais eficiente? Carnahan parece perdido, sem saber se tenta criar um thriller ou conduzir um filme mais profundo. De fato, os lobos são intimidadores e o clima de suspense ao redor dos incursões existe, mesmo que deficiente (em muitos cenas, a tensão é preterida em favor do susto). 

O grande destaque da película é a fotografia. Paisagens de tirar o fôlego são captadas de maneira a fazer o telespectador tremer de frio. A implacabilidade da natureza está sempre ao redor das personagens de maneira incisiva. Elas não pertencem àquele lugar, e a luta contra a alcatéia se transforma rapidamente em uma luta contra a natureza, em que o grupo usa as armas que ela própria lhes deu: adaptação e inteligência. Ao mesmo tempo em que podemos ser fortes e resistir à queda de um avião, Carnahan nos mostra a fragilidade do ser humano, onde podemos sucumbir a uma torsão de tornozelo ou à falta de oxigenação em terras de elevada altitude. 

Liam Neeson encarna Ottway, uma personagem genérica que ultimamente está acostumado a interpretar. Não compromete, mas também não adiciona nada. As personagens são pobremente desenvolvidas, com comportamentos paradoxais às suas histórias pessoais (superficiais e, por vezes, inexistentes). Por exemplo, partindo de um protagonista potencialmente suicida, esperamos ao longo do filme um motivo que de fato mude suas intenções e justifique seu forte instinto de sobrevivência. Esperamos em vão. Assim, fica um pouco difícil se solidarizar com os desafios que o protagonista enfrenta, com sua repentina e inverossímil mudança de comportamento e feroz vontade de sobreviver.

Os estereótipos de filmes de grupos que tentam enfrentar alguma ameaça se fazem presentes, de maneira incômoda e chata. Há o engraçadinho e falastrão, o medroso e questionador, o submisso e solidário, o líder politicamente correto, etc. Os clichês também estão lá, desmascarando a imprevisibilidade que poderia tornar o filme bem mais interessante. Apesar disso, gostei bastante do final, mas não irei comentar aqui para evitar spoilers.

Enfim, acredito que The Grey agrade aqueles que buscam um entretenimento despretensioso num suspense vazio e que não se tenha de botar a cabeça pra funcionar muito. Não há nada de novo, e a fórmula batida é tão descarada que chega a incomodar: parece que já assistimos isso antes, umas trocentas vezes. Mas aí está o mérito de Calahan: com estes elementos que afundariam qualquer película, ele consegue elevá-la a um nível mediano. Só espero que seu próximo projeto não seja Um Lobisomem Irlandês No Alasca.

Daniel Lima

quinta-feira, 19 de abril de 2012

CRÍTICA: Coriolano (Coriolanus, 2011)

Trailer de Coriolano

Uma obra de Shakespeare pouco considerada. Um protagonista arrogante e nada carismático perante ao espectador. Misture tudo numa adaptação dos idos do Império Romano para os dias atuais. Ralph Fiennes, em sua estréia na direção, optou por um projeto arriscado e desafiador. Coriolanus, entretanto, prova que ele possui muito mais do que apenas o talento (aqui mais uma vez comprovado!) para atuar.

A película se baseia numa tragédia shakesperiana que conta a história de Caius Martius (Ralph Fiennes), um general romano orgulhoso e arrogante, que conquista a alcunha de Coriolanus após a tomada da cidade de Corioli dos volscos, inimigos de Roma. Entretanto, odiado pelo povo, é banido de Roma e se alia ao rei inimigo, Aufidius (Gerard Butler), para despejar sua vingança sobre os romanos.

Apesar da distância temporal entre os cenários original e o do filme, a fusão foi muito bem conduzida. Não apenas isso; a fusão entre o teatro e o cinema é mais transparente e, de fato, uma conquista. Coriolanus é um filme onde as emoções estão sempre na flor da pele. Cada diálogo é apaixonado; cada discurso é inflamado. A opção por manter os diálogos e citações originais acompanha este sentido. Apesar de por vezes destoar um pouco, ao meu ver, foi uma decisão sábia. Como fã de Shakespeare, foi realmente fascinante assistir a uma ambientação atual com sua rebuscada e poética linguagem. Especialmente as cenas bélicas.

Mas o destaque do filme são mesmo as atuações. Fiennes nos desperta asco e admiração com sua personagem odiosa, idealista, arrogante e orgulhosa. Entretanto, consegue protagonizar a película com maestria. Vanessa Redgrave, como a mãe de Coriolanus, literalmente dá um show de interpretação durante todo o tempo em que aparece em cena. O seu discurso final ao filho é um espetáculo. Butler também se sai bem (apesar de ofuscado por Fiennes e Redgrave).

De fato, Coriolanus é um filme sobre orgulho, arrogância, ódio e vingança. Sentimentos considerados vis, que são postos sobre a perspectiva principal do protagonista e apresentados ao telespectador, às vezes, em pele de injustiça e lealdade. Talvez por isso e pela falta de simpatia de sua personagem principal, não seja considerada uma das maiores obras-primas de Shakespeare. Apesar disso, Fiennes tira de letra este desafio, confortável, em uma marcha triunfal por trás das câmeras. 

Daniel Lima

sábado, 14 de abril de 2012

CINEMA Os Melhores Das Sombras: Filmes Noir

O termo noir (leia-se “noar”) foi cunhado por críticos franceses para definir um novo gênero de filmes que surgiu nos anos 40, em Hollywood. Entretanto, há quem defenda que o noir é um estilo visual, caracterizado pela iluminação datição e pontos de vista psicológicos. Eu, particularmente, prefiro dizer que o noir foi, na verdade, um movimento cinematográfico.

Noir significa escuro - preto, negro - em francês. O termo foi cunhado nos anos 50 para definir este tipo de filme, um sub-gênero derivado dos filmes policiais na época e com características próprias. De fato, é bem difícil definir um noir. Então, como identificar um?

Destaquei algumas características facilmente identificáveis e próprias do estilo. Muitas são inerentes ao gênero policial. Vamos tentar identificá-las:

Crimes
Sempre há pelo menos um crime em cujas motivações ou consequências a trama principal se baseia: roubo, assassinato, extorsão, sequestro, fraude, tráfico, etc. Porém, diferentemente de um filme policial, estes crimes são vistos também pela perspectiva dos criminosos.


Iluminação sombria
O uso de iluminação parca é uma das marcas principais, herança de filmes de horror da década de 30 e do expressionismo alemão. Sombras dramáticas, alto contraste e iluminação low-key são elementos-chave do gênero.

Cenários urbanos
Os ambientes mais retratados são relacionados à vida noturna (ruas desertas, boates, becos escuros, bares, etc.), ao submundo dos crimes (armazéns de tráfico, casas de jogos e apostas ilegais, casas de prostituição, etc.), aos bastidores de lugares frequentados pela classe alta (hotéis de luxo, restaurantes chiques, etc.), etc. Mesmo de dia, percebe-se sombras, como nas salas de escritórios mal-iluminadas.

Corrupção
A corrupção não significa apenas as aventuras ilegais de detetives, políticos, policiais, empregados, etc., mas também a degeneração do caráter e da moral de uma personagem inicalmente íntegra. Entre as mais comuns estão o desenvolvimento de uma obsessão por um determinado assunto, objeto ou pessoa, e as motivações maquiavélicas (“os fins justificam os meios”) de uma personagem.

Personagens moralmente dúbias
As personagens são arquétipos encontrados na maioria dos filmes policiais, porém com personalidades mais complexas e com moral ambígua e relativa. Não existe a classificação herói/vilão ou mocinho/bandido, pois a tênue linha entre o certo e o errado (o ético e o imoral, o bem e o mal, etc.) é rompida e distorcida. Vícios e defeitos são mais focados e transparentes. Detetives alcoólatras, policiais homicidas, políticos corruptos, informantes viciados, maridos ciumentos, bodes expiatórios, criminosos violentos, etc., e suas variações, são tipos comuns. As motivações das personagens são secretas e mutáveis de acordo com os acontecimentos. Uma das peculiaridades noir é a presença da femme-fatale (mulher-fatal, em francês), normalmente uma gananciosa e egoísta mulher capaz de simultaneamente amar e matar um mesmo homem.

Relações humanas frágeis e instáveis
Trust no one. Qualquer personagem é uma vítima e/ou um suspeito de uma potencial traição. Mesmo sendo cônjuge, familiar, amigo íntimo, colega de trabalho, etc., não importa. É fundamental nunca confiar em ninguém, pois sempre haverá alguém disposto a trair, próximo ou não. Seja por dinheiro ou por sexo. Assim, reviravoltas e complôs são elementos onipresentes em filmes noir.

Violência física e psicológica
Normalmente os filmes noir retratam pontos de vista violentos e pessimistas. Prepare-se para assistir à realidade nua e crua, que não dá espaço para príncipes encantados ou princesas ingênuas de contos de fada. Justamente por isso, nunca há a falsa indicação (ou sequer a menor insinuação) de que tudo acabará happily-ever-after. E usualmente não acaba.

Cigarros e bebidas
Quase todas as personagens fumam ou bebem. Talvez pelo fato destes artigos terem  sido sinônimos de moda, vício e degeneração na época. Closes em guimbas ou drinks são perspectivas comuns.

Elementos técnicos não-convencionais
Ângulos de câmera indiretos (pessoas filmadas em espelhos, filmagens através de vidros, etc.), uso de narrativa (narrativa não-linear, flashbacks, etc.), roteiro intrincado, fotografia expressionista, etc., são outras características sempre presentes nestas películas.

Estas características ajudarão a identificá-lo. Porém, o noir teve sua época e fim. Foi exclusivo das décadas de 40 e 50; foi um movimento, cuja realização os próprios criadores não possuíram ciência, até uma década depois, quando o surgiu o termo.

Trailer de Los Angeles - Cidade Proibida

Porém, atualmente existem diversas obras que se inspiram nos antigos clássicos. Mais que isso: tentam ressuscitar o gênero. Películas contemporâneas com este objetivo são chamadas de neo-noir. Por isso, fiz duas listas de recomendações. A primeira, composta por quinze exemplos dos anos 40 e 50, de mestres como Orson Welles, Billy Wilder, Alfred Hitchcock, e John Huston, é a Lista Clássica (sem ordenação):

  1. Double Indemnity (Pacto De Sangue, 1944)
  2. The Maltese Falcon (Relíquia Macabra, 1941)
  3. The Killing (O Grande Golpe, 1956)
  4. Notorious (Interlúdio, 1946)
  5. Touch Of Evil (A Marca Da Maldade, 1958)
  6. The Third Man (O Terceiro Homem, 1949)
  7. Laura (Laura, 1944)
  8. Sweet Smell Of Success (A Embriaguez Do Sucesso, 1957)
  9. Sunset Boulevard (Crepúsculo Dos Deuses, 1950)
  10. A Streetcar Named Desire (Uma Rua Chamada Pecado, 1951)
  11. The Night Of The Hunter (O Mensageiro Do Diabo, 1955)
  12. Strangers On A Train (Pacto Sinistro, 1951)
  13. Gilda (Gilda, 1946)
  14. Diabolique (As Diabólicas, 1955)
  15. The Big Sleep (À Beira Do Abismo, 1946)
Trailer de Pacto De Sangue

Já a segunda, a Lista Contemporânea, é composta por vinte filmes neo-noir, dos anos 60 até os dias de hoje. O neo-noir consegue fugir mais do gênero policial, espalhando-o por outros, como a comédia, a animação e a ficção-científica. Segue a lista (sem ordenação):

  1. The Usual Supects (Os Suspeitos, 1995)
  2. Chinatown (Chinatown, 1974)
  3. L.A. – Confidential (Los Angeles - Cidade Proibida, 1997)
  4. Dark City (Cidade Das Sombras, 1998)
  5. Sin City (Sin City - A Cidade Do Pecado, 2005)
  6. Blade Runner (Blade Runner - O Caçador De Andróides, 1982)
  7. The Black Dahlia (Dália Negra, 2006)
  8. Reservoir Dogs (Cães De Aluguel, 1992)
  9. Memento (Amnésia, 2000)
  10. Blue Velvet (Veludo Azul, 1986)
Trailer de Sin City - A Cidade Do Pecado

  1. Ghost In The Shell (O Fantasma Do Futuro, 1995)
  2. Oldboy (Oldboy, 2003)
  3. Drive (Drive, 2011)
  4. Taxi Driver (Taxi Driver - Motorista De Táxi, 1976)
  5. American Psycho (Psicopata Americano, 2000)
  6. Angel Heart (Coração Satânico, 1987)
  7. The Godfather (O Poderoso Chefão, 1972)
  8. Shutter Island (Ilha Do Medo, 2010)
  9. Who Framed Roger Rabbit (Uma Cilada Para Roger Rabbit, 1988)
  10. The Big Lebowski (O Grande Lebowski, 1998)
Trailer de Coração Satânico

Como fã das belíssimas obras noir (inclusive das recentes ótimas tentativas de renovar o gênero), espero que voltemos às sombras, onde o pesado clima de mistério, sedução e traição dominem novamente a Sétima Arte. Espero poder voltar aos braços da minha femme-fatale e rebater o seu doce e fatal bote. Ou não.

Daniel Lima

CRÍTICA: Os Especialistas (Killer Elite, 2011)

Trailer de Os Especialistas

The Feather Men é um romance controverso do britânico Ranulph Fiennes, supostamente baseado em fatos reais. A controvérsia gira em torno destes “supostos fatos reais”, que jamais foram confirmados e são negados pelo governo e até por pessoas ligadas às vítimas da história. Os Especialistas é um filme de ação-espionagem do estreante diretor Gary McKendry que se baseia nesta obra.

Na trama, três ex-membros da SAS (Special Air Service, as forças especiais britânicas e uma das mais respeitadas do mundo) são colocados na mira de um grupo de mercenários contratados por um sheik, que deseja vingança contra aqueles que assassinaram seus filhos. O grupo, liderado por Danny (Jason Statham), mercenário profissional “aposentado”, entrará em conflito com os Feather Men, sociedade secreta responsável pela proteção dos membros da SAS.

Quando lemos “filme de ação com Jason Statham”, já sabemos o que esperar. Nada de tramas intrincadas, personagens complexas ou situações melodramáticas. Esperamos tiros, porrada, perseguições, explosões e  correria. Nesse quesito, o filme não deixa a desejar; apesar das cenas não serem mirabolantes ou inovadoras, são bem feitas e intercaladas. Além disso, todos os clichês possíveis do gênero estão lá: mercenário profissional que quer largar o ramo, o suposto “último trabalho”, o recrutamento da equipe, a preparação para a execução do plano, as reviravoltas e armadilhas previsíveis, a chantagem e as ameaças aos amigos/namorada/família, etc. Não que isso seja ruim; McKendry possui apenas duas opções: entre realizar um thriller político ou um filme genérico de ação, ele opta pela segunda opção.

Isso não quer dizer que a trama fica esquecida. A narrativa, por vezes atropelada, conduz a história de maneira um pouco deficiente. Mas, desde que isso não atrapalhe o ritmo da pancadaria, quem se importa? O filme se passa nos anos 80, mas às vezes parece ambientado nos anos 70 (ou até mesmo 60!). De novo: who cares? Statham faz o que sabe melhor, o que o consagrou como o grande astro do cinema de ação atual, e apenas isso já seria o suficiente para o público-alvo de McKendry.

Clive Owen não ameaça como vilão, impotente (e desacreditado pelo bigodinho anos 80 à la Freddie Mercury, e pelo fato do roteiro sempre fazer sua personagem de paspalhão), mas também não compromete. As cenas de luta entre ele e Statham são particularmente boas, porém sem nenhuma novidade para o gênero. E ainda temos Robert De Niro, como um coadjuvante de luxo que aparece pouco, mas que mesmo assim acrescenta bastante. Exceto pela  tirada infame “Relax. I only killed the car.”). Não, De Niro, isso não!

Com o público-alvo bem definido, McKendry não se preocupa em inovar; quer mesmo é mostrar a famosa ação-pipoca já consolidada nas telonas. De fato, e apesar dos defeitos, Os Especialistas cumpre o que promete e irá proporcionar bons momentos de entretenimento para os fãs do gênero. Porém, não é nada além de mais um filme genérico de ação.

Daniel Lima

quinta-feira, 12 de abril de 2012

CRÍTICA: The Cat (The Cat, 2011)

Trailer de The Cat

O cinema sul-coreano ficou mundialmente conhecido nas últimas décadas graças a Chan-wook Park e suas obras-primas, como "A Trilogia da Vingança" – Mr. Vingança (Sympathy For Mr. Vengeance, 2002),  Oldboy (Oldboy, 2003) e Lady Vingança (Lady Vengeance, 2005) – e Sede De Sangue (Thirst, 2009). Mas não só de Park vive a Coréia. Com os excelentes O Hospedeiro (The Host, 2006) e Eu Vi O Diabo (I Saw The Devil, 2010), os sul-coreanos vem mantendo sua fama e sucesso, tanto de crítica quanto de público. Foi esse um dos fatos que me levou a querer assistir a The Cat, do diretor Seung-wook Byeon. Justamente por isso, me decepcionei... e muito!

Vamos à premissa. So-Yeon (Min-Young Park), uma jovem claustrofóbica que trabalha numa pet-shop, começa a cuidar de um gato, após sua dona morrer inexplicavelmente em um elevador. Então, ela começa a ter visões de uma misteriosa menina. Enquanto outras fatalidades inexplicáveis acontecem, sempre envolvendo gatos, ela começa a temer por sua vida e tenta desvendar o mistério por trás das mortes.

Está aí uma história com bons elementos pra um filme de terror. Há a criança bizarra (nova moda do cinema de horror contemporâneo), animais inofensivos e comuns (no caso, gatinhos fofinhos), um trauma ou medo incontrolável (claustrofobia), e uma garota jovem e linda (ai, ai, Min-Young Park...). Porém, a costura entre esses elementos é fraca, transformando o filme numa colcha de retalhos que se desmancha facilmente ainda na primeira metade.

Há um ou outro bom susto, mas, no geral, o filme se arrasta numa história sem lógica em torno de personagens chatas, que derrubam, na maior parte do tempo, a atmosfera assustadora do filme. Os efeitos não são lá grande coisa e transforma boa parte das cenas em situações risíveis. Destaque apenas para a menininha bizarra com seus olhos sinistros.

Não há ritmo na narrativa, que não faz a mínima questão de aguçar a curiosidade do telespectador e instiga apenas o sono. Acabamos, portanto, “esquecendo” de nos preocuparmos com os motivos (superficiais e ridículos, como se verá no final) pelos quais as mortes estão acontecendo. O final é previsível, infantil e idiota demais. Sim, fazemos papel de idiota duas vezes: ao prever o final medíocre e ao assitir até o último momento, com esperança de que estejamos errados e o diretor seja um pouco mais criativo e inteligente que nós.

Em suma, The Cat prova duas coisas. A primeira: o cinema sul-coreano também tem seus ovos podres e agora eles estão chegando até nós. A segunda: está cada vez mais difícil realizar um bom filme de terror. Portanto, não me levem à mal: adoro animais de estimação, especialmente os gatos. Porém, evite cruzar com eles pela rua após esta sessão, pois você terá uma tremenda vontade de chutá-los, culpando-os pela encheção de saco que eles protagonizaram nesta película. 

Daniel Lima

sábado, 7 de abril de 2012

CINEMA Os Melhores Dos Piores: Filmes Trash

Nem só de glórias vive a Sétima Arte. Existem exemplos execráveis, que despertam o nosso ódio mais profundo. Aqueles filmes que são ruins de dar dó e que nos faz lamentar, ao final da sessão, o tempo que perdemos em frente à tela. Filmes que acreditamos que jamais deveriam ter sido feitos e que nos leva a repetir a pergunta, desesperados: Por quê? Por quê? POR QUÊ???

E existem os chamados filmes trash (trash movies). Há muito preconceito em relação a este gênero, pois confunde-se facilmente filmes verdadeiramente ruins, como The Happening (Fim Dos Tempos, 2008), Waterworld (Waterworld – O Segredo Das Águas, 1995), Catwoman (Mulher-gato, 2004), Dreamcatcher (O Apanhador De Sonhos, 2003), etc., com filmes trash (trash, em inglês, significa lixo). Porém, há um abismo bem grande entre eles. Então, afinal, o que é trash?

Trash é um estilo de filmes caracterizados pelo baixo custo e por terem sido, propositadamente ou não, mal feitos. Muito comuns dos anos 60 aos 80, são responsáveis por revelar grandes nomes do cinema contemporâneo, como Peter Jackson, George A. Romero e Sam Raimi, e inspirar outros, como Quentin Tarantino. Há uma legião de fãs deste gênero que, assim como eu, se entretém assistindo a estes filmes que, de tão toscos e com premissas beirando o ridículo, tornam-se divertidos. Geralmente, são obras com temas voltados ao horror (para os quais, em sua maioria, necessita-se de um estômago forte) ou à ficção científica. Por serem produções independentes e de orçamento bem limitado, são geralmente fontes inesgotáveis de originalidade e criatividade.

Cena de Braindead

Assim sendo, resolvi fazer duas listas de filmes trash. A primeira delas é uma Lista Clássica, de quinze obras e até o ano de 1979, com uma maioria a que, vergonhosamente, não assisti. Porém, são filmes que estão sempre presentes em qualquer lista do gênero (em blogs e em websites especializados) e que são recomendados a todo fã de trash.

Segue a Lista Clássica (sem ordenação):

  1. Plan 9 From Outer Space (Plano 9 Do Espaço Sideral, 1959)
  2. Attack Of The Giant Leeches (O Ataque Das Sanguessugas Gigantes, 1959)
  3. Pink Flamingos (Pink Flamingos, 1972)
  4. Attack Of The Killer Tomatoes! (O Ataque Dos Tomates Assassinos, 1978)
  5. The Island Of The Fishmen (A Ilha Dos Homens-peixe, 1979)
  6. At Midnight I´ll Take Your Soul (À Meia-noite Levarei Sua Alma, 1964)
  7. Empire Of The Ants (O Império Das Formigas, 1977)
  8. The Wasp Woman (A Mulher Vespa, 1959)
  9. Manos: The Hands Of Fate (Manos: The Hands Of Fate, 1966)
  10. Santa Claus Conquers The Marcians (Santa Claus Conquers The Marcians, 1964)
  11. The Hills Have Eyes (Quadrilha De Sádicos, 1977)
  12. Ilsa: She Wolf Of The SS (Ilsa: She Wolf Of The SS, 1975)
  13. Freaks (Monstros, 1932)
  14. Blood Feast (Banquete De Sangue, 1963)
  15. This Night I´ll Possess Your Corpse (Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver, 1967)

Cena de Plan 9 From Outer Space

Já a segunda, a Lista Contemporânea, foi composta por vinte películas, desde o ano de 1980 até hoje. São filmes que particularmente gosto muito ou que me marcaram, e que variam desde o extremo da tosquice até belas e bem trabalhadas homenagens ao gênero. Já assisti à grande maiora desta lista; por isso recomendo-os fortemente aos amantes do trash.

Segue a Lista Contemporânea (sem ordenação):

  1. Braindead (Fome Animal, 1992)
  2. Cannibal Holocaust (Holocausto Canibal, 1980)
  3. Planet Terror (Planeta Terror, 2007)
  4. Tremors (O Ataque Dos Vermes Malditos, 1990)
  5. Robo-geisha (Robo-geisha, 2009)
  6. The Brain (O Cérebro, 1988)
  7. Machete (Machete, 2010)
  8. The Evil Dead (The Evil Dead – A Morte Do Demônio, 1981)
  9. Re-animator (Re-animator, 1985)
  10. From Dusk Till Dawn (Um Drink No Inferno, 1996)

Cena de Tremors

   11. The Human Centipede (A Centopéia Humana, 2009)
   12. Shakma (Shakma – Fúria Assassina, 1990)
   13. Nekromantik (Nekromantik, 1987)
   14. Drag Me To Hell (Arraste-me Para O Inferno, 2009)
   15. The Toxic Avenger (O Vingador Tóxico, 1984)
   16. Bad Taste (Trash – Náusea Total, 1987)
   17. Galaxy Of Terror (Galáxia Do Terror, 1981)
   18. Lobster Man From Mars (O Fim Do Planeta Marte, 1989)
   19. Critters (Criaturas, 1986)
   20. Tucker And Dale Vs. Evil (Tucker E Dale Contra O Mal, 2010)

Cena de Drag Me To Hell

Claro que algumas aparentes pérolas ficaram de fora. Muitas talvez por eu não ter tido a oportunidade de assisti-las, como Killer Clowns From Outer Space (Palhaços Assassinos do Espaço Sideral, 1988), Killer Condom (A Camisinha Assassina, 1996), Guinea Pig (Guinea Pig, 1985), Zombie Ass – Toilet Of The Dead (Zombie Ass – Toilet Of The Dead, 2011), Microwave Massacre (Microwave Massacre, 1983), Sexual Parasite: Killer Pussy (Sexual Parasite: Killer Pussy, 2004), Hard Rock Zombies (Hard Rock Zombies, 1985), Rubber (Rubber – O Pneu Assassino, 2010), The Refrigerator (A Geladeira Diabólica, 1991), Teeth (Teeth – A Vagina Dentada, 2007), Embodiment Of Evil (Encarnação Do Demônio, 2008), Hobo With A Shotgun (Hobo With A Shotgun, 2011), etc. Existem outros exemplos que ficaram de fora de propósito; filmes feitos com a intenção de serem trash, mas que são muito forçados, e, na minha opinião, são intragáveis ou insossas perdas de tempo. Entre estes: Zombie Strippers! (As Strippers Zumbis, 2008), Piranha 3D (Piranha 3D, 2010), Nude Nuns With Big Guns (Nude Nuns With Big Guns, 2010), Lesbian Vampire Killers (Matadores De Vampiras Lésbicas, 2009), etc.

Cena de Planet Terror

Enfim, ficam aí as dicas. Espero que este gênero possa ser menos incompreendido e cada vez mais apreciado, pois os filmes trash também fazem parte da História do Cinema. Dito isso, vou preparar minha escopeta para estourar alguns miolos de zumbis. Headshot rules!

Daniel Lima

sexta-feira, 6 de abril de 2012

CRÍTICA: Contágio (Contagion, 2011)

Trailer de Contágio

Um elenco de fazer inveja a qualquer cineasta, uma premissa interessante, um roteiro interpolado à la Crash (Crash – No Limite, 2004) e o respeitado diretor de Traffic (Traffic: Ninguém Sai Limpo, 2000), Steven Soderbergh. Contagion tinha tudo para se tornar um thriller perfeito, mas, infelizmente, Soderbergh se atrapalha, nos oferecendo um produto comercialmente duvidoso e artisticamente fraco.

Na trama, um vírus se espalha rapidamente pelo mundo. Acompanha-se o incidente através de várias personagens: vítimas, cientistas, agentes do governo e um jornalista. Com o mundo como palco, eles lutam pela sobrevivência e salvação, enquanto a sociedade como se conhece desmorona.

Fica difícil acompanhar o clima de urgência, que se tenta instaurar desde o início da película, com sub-tramas tão desinteressantes e sem relevância à trama principal (um grupo de cientistas e a busca pela cura). O roteiro peca em desperdiçar atores e atrizes de peso, sem desenvolver suas personagens. Aliás, todas as personagens são extremamente rasas, o que torna ainda mais complicado para o telespectador se importar com alguma coisa que se está sendo mostrado na tela. A impressão que fica é que, todos morrendo ou não, tanto faz. C´est la vie...

Kate Winslet e Marion Cotillard estão bem, mesmo com personagens que nada adicionam à trama. Jennifer Ehle surpreende. Outros, como Matt Damon, Gwyneth Paltrow e Laurence Fishburne, fazem o “feijão com arroz”, atuando no automático. Porém, é Jude Law que se destaca negativamente, numa atuação tão forçada que torna a sua personagem (já desacreditada desde o início, seja na tela ou fora dela) um tanto caricata.

Tentando abordar vários pontos de vista (o individual e egoísta, o social e o político-econômico), Soderbergh tenta abraçar o mundo com as pernas e se perde. Não se aprofunda em nada, e ainda abandona algumas personagens secundárias ao léu. Na segunda metade do filme, apresenta-se uma série de cenas e situações clichês, presentes em variados filmes-catástrofes. Fica a impressão de que o diretor está tentando, de maneira forçada, uma fusão entre Outbreak (Epidemia, 1995) e Blindness (Ensaio Sobre A Cegueira, 2008), sem conseguir chegar perto de nenhum deles.

A trilha sonora é um demérito à parte. Parece tentar compensar o vazio, ao impor um ritmo mais alarmante à história. Não funciona. Entretanto, há de se louvar a narrativa, que segue coerente (apesar de alguns atropelos do roteiro) e mantém a sanidade em meio ao pânico que se instaura na tela. Os posicionamentos da câmera de Soderbergh também são interessantes para captar alguns (poucos) momentos de emoção, em contraste ao sentimentalismo barato, também presente no filme.

Enfim, com personagens ocas e trilha sonora equivocada, o diretor tenta salvar a película, porém sem muito esforço. Não é de todo um filme ruim, mas bem fraco pela promessa que os nomes talentosos conectados a ele oferecem. Desta vez, mesmo com valiosos recursos, Soderbergh falhou feio, com indiferença, e não parece nem de longe o cineasta que se consagrou com Traffic. Contagion não fede nem cheira; está fadado ao esquecimento minutos após o término da sessão. 

Daniel Lima